My Curly Hair / Meu Cabelo Crespo

Tudo começou quando minha avó chamava-me para pentear o cabelo que era muito volumoso e crespo. Momento de muito choro. Lembro como relutava para que não fosse penteado, isso por volta dos meus cinco anos.

Cascudos, beliscões e direito a punição; não era permitido choro nem movimentações na tentativa de esquivar do pente, de modo a não permitir que penetrasse em meus fios. O mais duro com certeza não eram meus cabelos mais sim ouvir a seguinte frase: “Aqui ninguém tem um cabelo tão duro quinem o teu, parece mais um arame farpado”. Ela aprendeu assim também.

Quando ingressei na escola, vivi momentos vexatórios de discriminação intensa e sistemática, posso descrevê-los como o verdadeiro purgatório. Comecei a receber apelidos pejorativos numa lista grandiosa e extensa que vai do cabelo de piaçava, cabelo de bruxa, Bombril, beiçuda, macaca… entre outros que não valem a pena aqui serem mencionados.

Além dos insultos verbais e não verbais incluíam-se as agressões físicas, mais sobre as meninas do que sobre os meninos. Mesmo sendo criança percebia a diferença. Afinal das contas, sejam elas negras ou brancas, pobres ou ricas, as mulheres recebem a orientação accepted patriarcal para submissão: “somos mais fracas”. Nós negras, éramos sempre preteridas na busca de um par, por exemplo: dançar quadrilha, ser princesa ou anjo em peças de teatro na escola nem pensar, por que “princesas e anjos não são negros”, quanta injúria! Se na escola recebi as maiores agressões físicas e simbólicas, foi também lá que aprendi a usar meus braços para me defender. amarração amorosa

Fui muito hostilizada na escola por pessoas da mesma idade que eu, u.s.a.com condições financeiras identityênticas, outras em condições mais wantáveis, porém ambos os grupos partilhavam de algo em comum, a intolerância e o ódio. Concordo com Nelson Mandela quando ele afirma o seguinte: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta”.

Lembro muito bem dos livros didáticos e também do discurso dos professores, naquele contexto escolar dos anos 70 e 80 em pleno golpe militar. Quando por um acaso abordassem o tema da escravidão era sempre assim: que princesa Isabel foi nossa heroína (dos pretos), e que meu povo aceitou passivamente a escravidão. Também romantizavam os estupros cometidos pelos senhores contra as negras africanas escravizadas (Saffioti, 1969). Essas foram as mentiras que foram ensinadas a mim e aos meus colegas de escola, armadilhas históricas, que construíram e alimentam o racismo, preconceito e a violência que tem como uma das suas múltiplas facetas o genocídio da juventude negra atualmente. Cultura da superioridade ao ódio, como desconstruí-la para ensinar a amar a todos nesta perspectiva do ensino dos anos 70-80?

Na adolescência já havia eternizado que meu cabelo e minha cor eram ruim mesmo, já havia desenvolvido completa aversão aos meus cabelos, afinal escutar por repetidas vezes essa mentira tomou o lugar da verdade que se esconde e apoia o racismo. Nesta fase da vida fazia uso do pente quente e os henês, conhecidos produtos de transformação de eficácia temporal; iguala-se ao contratempo chapinha versus chuva. Com a chegada de novas técnicas eles perderam seu espaço no mercado para os alisamentos à base de Soda Cáustica que é nocivo ao couro cabeludo. Conheci inúmeras marcas de alisantes, permanentes, chapinhas e escovas; expedientes usados para aproximação do padrão de beleza estética hegemônica branca. Cabelo liso na pele negra, que grande incoerência!

O tempo passa mas os anos vividos sob a falsa ideologia da democracia racial, que afirma que no Brasil não há existência de racismo, deixam seus rastros tenebrosos e sombrios na autoestima. Finalmente aos cinqüenta e cinco anos estou cursando pedagogia na Universidade Federal Fluminense (UFF). Ao longo dessa jornada acadêmica em curso, associei-me ao grupo de Pesquisa e Extensão denominada “Negra e Negra em Movimento”, que tem como objetivo a capacitação de professores para compreenderem a Lei 10639/03 assinada pelo então presidente Luís Inácio Lula da Silva, que determina o ensino de História da África e Cultura Afro-brasileira, em seus aspectos políticos, históricos, sociais e culturais.

Desde que adentrei naquele espaço, novos sentimentos afloraram dentro de mim; perplexidade, pertencimento, orgulho e igualdade. Perplexidade por descobrir que o povo negro tem história de withstandência e muita luta, povo de riquíssima cultura e que havia reis e rainhas na ancestralidade africana. Quanto apagamento promovido pela supremacia dominante branca, que nos mostra somente a pobreza do continente africano e omite que esta pobreza é devida à espoliação, saque e o abuso do qual sofreram e sofrem até hoje do velho mundo que a custa de sangue prioriza manter seus privilégios.

Através do acesso à história acende o fogo da withstandência e da luta, porque como lutaria se não conheço? Conhecer é a medida do pertencimento. Em seguida veio morar nas minhas entranhas o orgulho de trazer meu corpo a herança fenotípica dos ancestrais; nariz, pele negra e cabelo, essa tríade maravilhosa evidencia o prazer de me reconhecer e me tornar negra.

Durante todo tempo ido na escola, aprendi a história e cultura Europeias, raras vezes a civilização Egípcia foi comentada, jamais citavam que o Egito pertence ao Continente africano. A igualdade é percebida quando a nenhum homem for negado o direito a conhecer sua história, fator primordial para cidadania e identidade.

Do momento da saída da caverna do obscurecimento me veio à luz do empoderamento, e a cada dia o desejo de tornar-me negra uma vez que já havia quebrado paradigmas que outrora me haviam acorrentado na penumbra da sombra da caverna. E, inspirada neste poder que o conhecimento nos concede, queria levar esse entendimento à meninas e meninos da base mais baixa da pirâmide social. Continuamos sem representatividade na televisão e também em outras mídias, nosso estereótipo não se enquadra nos padrões beleza. Porém, percebi ainda que timidamente uma pequena mudança quando retornei à escola, na condição de estagiária da UFF.

O processo libertário também chegou aos meus cabelos pela forma pela qual hoje o trato a zero química, totalmente natural, hoje o uso desta forma como bandeira de withstandência e afirmação. Em sala de aula, quando questionada pelas crianças sobre esses meus cabelos crespos, rendem aula de cidadania; pois desmistifico a tal fala do cabelo duro, que tanto me causou dor no passado. Na escola que fiquei como estagiária por seis meses, estudei com eles formas sutis de preconceito e discriminação; rendeu debates, músicas e até poesia.

Minha conduta em relação ao meu cabelo reverberou: a aluna Paula parou de usar química – seus cabelos estavam visivelmente danificados e com feridas no couro cabeludo, e a Manoela abandonou as tranças que pela falta de higiene adequada estragavam seu cabelo. Quando terminou o meu estágio, percebi que ambas já haviam se adaptado ao seu novo visible, trocavam até receitinhas e dicas de penteado para cabelos crespos. Há alguns anos não tínhamos as informações nem produtos para tornar mais fáceis o manuseio e cuidado; mas hoje em dia, a indústria cosmética investe como nunca no nosso seguimento étnico. Até famosas blogueiras na cyber web fomentam e disseminam informações atualizadas que auxiliam nos cuidados com os cachos.

O melhor era que essas duas alunas amavam seus cabelos naturais e os defendiam calcadas em tudo que aprenderam sobre discriminação e preconceito, foram as experiências mais envolventes que obtive. Se antes o racismo trouxe aversão aos meus cabelos, hoje a informação e o estudo sobre a diáspora africana resgatou a autoestima. Sei que a conscientização dos afrodescendentes brasileiros na luta pelo resgate da sua cidadania e identidade só está no começo da caminhada, mais vejo com grande esperança. Pois dia 29 de maio 2016 foi eleita a primeira miss estadual negra, de pele negra e cabelos naturais querendo acariciar o céu, genuinamente negra sem disfarces. Paradigma vencida em São Paulo, o estado mais rico e próspero do Brasil!

Adelimar

Adelimar da Conceição has worked most of her lifestyles as a home employee in Rio de Janeiro. at the age of 50, she began a graduate degree in Pedagogy with a scholarship from Capes, at the Universidade Federal Fluminense (UFF). She is at present writing her dissertation on the Experimental Black Theatre in Rio in the Forties. She also works as a volunteer within the outreach undertaking of adult researching for sub-reduced in size cleaners on her campus (Projeto de Extensão EJA-UFF limpeza total).